terça-feira, 29 de agosto de 2023

Parádia - O bicho, de Manuel Bandeira - Carolina Oliveira

O Bicho, de Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


O Bolo 

 

Vi ontem um bolo, de bobeira em cima da mesa, com muito recheio e cobertura. 

Quando chegava alguém, não  

oferecia nem guardava, engolia 

com velocidade. 

O bolo não era de chocolate, 

Não era de trigo, 

Não era de cenoura. 

O bolo, meu Deus, era um sonho  

Paródia - No meio do caminho, de Carlos Drummond de Andrade - Caio Daniel Sousa

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

No fim do caminho

No fim do caminho estava Pedro
Pedro estava no fim do caminho
corri, fingi, tropecei em Pedro
no fim do caminho, Pedro tentou me derrubar.
Nunca me esquecerei do galo da queda que minha testa ficou ao desmaiar.
Nunca me esquecerei que no fim do caminho
Pedro queria me sabotar
Pedro estava no fim do caminho
No fim do caminho, Pedro estava lá.

Créditos: No meio do caminho – Poema original de Carlos Drummond de Andrade.

Paródia: Adeus, meus sonhos, de Álvares de Azevedo - Armando Vieira

 Álvares de Azevedo

ADEUS, MEUS SONHOS!

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto...
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?!... morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!


Paródia do Poema


Adeus, meu sonho, morro de luto!

Não tenho a existência da saudade!

Tanta vida enche meu peito

Ele morreu na minha triste juventude!


Trágico! votei nos meus dias pobres

O destino louco de um amor infrutífero,

minha alma dorme no escuro

Como a morte com um olhar de luto.


Meu Deus, o que me resta? morra comigo

A estrela do meu amor sincero,

Já não vejo a morte no meu peito

Nem mesmo um punhado de flores mortas!

Paródia Poeta Radiante, de Lanna Cabral - Ana Clara Garcia


Princesa radiante

Das estrelas do céu

Ao reino do mar

Aquela rainha é tão bela

Ao ponto de me tirar o ar

Princesa encantada

Do reino de Iemanjá

Vem nos cobrindo com os encantos

Que tem as ondas do mar

De lendários pescadores e marinheiros

Que um dia naufragaram

Diante do seu canto encantado

Trazendo a beleza do mar, o segredo das ondas

e a melodia de Iemanjá

E nas noites de luar

Onde Janaína se põe a cantar

Vem soprando a brisa do mar

Com seu canto entoando

Ela vem nos encantar

Lavando e purificando

Na força da iabá

Essa princesa é uma sereia

Das navegantes que se perdem em alto mar

Pois sua voz é tipo um veneno

Que engana e deixa suas almas sozinhas vagar.

Crônica Lírica - Luiz Gustavo Aires

  Fragmentos de Nostalgia


No crepúsculo suave da memória, encontro-me perdido entre os suspiros do passado, como um viajante solitário que percorre trilhas esquecidas pela vida. Meu nome é Gustavo, e sou um colecionador de momentos, um arqueólogo das lembranças que habitam os recantos da minha mente.

Nostalgia, essa melodia suave e agridoce, é minha companheira constante. Ela sussurra em meus ouvidos, trazendo à tona as imagens desbotadas de um tempo que se foi. Lembro-me das tardes douradas de infância, quando as brincadeiras eram sonhos entrelaçados com a simplicidade de cada dia. A risada ecoa como um eco distante, uma sinfonia que só eu posso ouvir.

Cada rua, cada esquina, é um portal para um mundo que já não existe. Sigo os caminhos que antes eram trilhados com passos leves e coração repleto de curiosidade. As árvores que cresceram junto comigo agora parecem guardiãs silenciosas das histórias que partilhamos.


Mas o tempo não espera por ninguém, e as estações da vida seguem seu curso implacável. Os lugares mudam, as pessoas seguem seus caminhos, e os sonhos se transformam em novas aspirações. A melodia da nostalgia persiste, mas agora traz um tom de gratidão misturado com um toque de saudade.

Hoje, enquanto escrevo estas palavras, percebo que a nostalgia não é um fardo, mas sim um presente. Ela me lembra de onde vim, das alegrias que vivi, das lágrimas que derramei. Essas lembranças moldaram quem sou agora, e embora não possa reviver o passado, posso honrá-lo através da minha jornada presente.

Assim, sigo em frente, com o coração entrelaçado às lembranças que me fazem sorrir e me fazem sentir. Sou Gustavo, um guardião das histórias que a vida me presenteou, um viajante entre o que foi e o que está por vir. E enquanto a nostalgia continua a dançar comigo, sei que cada momento é um presente que logo será envolvido pelas asas da saudade.

Crônica Lírica - Leônidas Filho

 Praia


Certo dia eu estava em casa sozinho e entediado, pois minha irmã havia saído, por esse motivo, decidi me arrumar para sair de casa e aproveitar a praia, já que o dia estava lindo, tão lindo quanto uma flor, então peguei as minhas coisas, tomei o meu café da manhã e sai de casa tão rápido quanto um raio.

Chegando na praia, logo senti o vento em meu rosto, a areia nos meus pês, me sentia muito relaxado, algo que eu não sentia a muito tempo, pois eu já estava a tanto tempo sem sair de casa, que parecia que eu não conseguia fazia isso a uma eternidade.

Enquanto eu estava tomando uma deliciosa água de coco, lembrei que havia deixado o fogão aceso, desesperadamente, peguei as minhas coisas e fui correndo de volta para casa, fiquei imaginando o pior, minha casa ardendo em chamas, no desespero liguei para a minha irmã e perguntei “Você já voltou para casa?”, e ela rapidamente respondeu, “Não, aconteceu algo de errado?”.

Quando cheguei em casa, deliguei o fogão e me senti aliviado por saber que nada de errado havia acontecido com a minha casa, me senti leve como uma pena, depois de passar por esse desespero, liguei novamente a minha irmã e avisei que estava tudo bem, e após esse dia cansativo, tomei um banho e fui dormir.

Crônica Lírica de João Miguel

 Dias de um cidadão


No calor da tarde ensolarada, as ruas da cidade ganham um ritmo tranquilo e contemplativo. O murmúrio suave das folhas nas árvores parece se fundir com os sussurros distantes dos passantes, criando uma sinfonia única. Sob o céu azul profundo, as fachadas dos prédios históricos contam histórias silenciosas de gerações passadas, enquanto os raios de sol acariciam gentilmente suas superfícies desgastadas pelo tempo.


Nesse cenário, encontro-me perdido em pensamentos, caminhando sem pressa. Os rostos desconhecidos ao meu redor parecem dançar com uma aura de tranquilidade, como personagens de um poema que ganham vida em cada esquina. As cores vivas das flores em vasos cuidadosamente dispostos nas janelas contrastam com o cinza das calçadas, criando uma paleta visual que faz o coração suspirar de admiração.


Enquanto as horas avançam, a tarde se transforma em crepúsculo, e um suave manto alaranjado cobre o horizonte. As luzes da cidade começam a se acender, uma a uma, como estrelas que surgem timidamente no céu noturno. É nesse momento mágico que a cidade revela sua alma mais íntima, uma fusão de nostalgia e esperança que paira no ar, como uma canção lírica que ecoa nos corações sensíveis.


E assim, sob a abóbada celeste pontilhada de luzes urbanas, sinto-me envolvido pela harmonia da vida citadina. Cada esquina, cada sombra, cada riso distante contribui para a crônica lírica que se desenrola diante dos meus olhos. E nesse instante efêmero, encontro a beleza no cotidiano e a poesia na simplicidade, perdendo-me no encanto dessa cidade que pulsa com vida e emoção.

Crônica Lírica - Henry Peres

 “Canções do Tempo: Memórias, Melancolia e o Florescer da Poesia”


No calor da tarde, enquanto o sol dourado se despede lentamente, meu coração se enche de melancolia. Sentado à beira do rio sereno, deixo que as memórias fluam em meio às águas calmas que refletem minha alma inquieta.

Lembro-me dos dias de outrora, quando a juventude corria solta em meu peito. Eram tempos de sonhos e aventuras, em que a vida parecia dançar em harmonia com meus desejos mais profundos. Ah, como as lágrimas da alegria escorriam livremente pela minha face naqueles momentos de plenitude!

Mas vejam só, o tempo implacável não tardou em me lembrar de sua fugacidade. Os amores que se foram, as promessas quebradas, os sonhos que se desvaneceram no ar como pétalas de uma flor desbotada. Hoje, sou apenas um espectador desse teatro da existência, contemplando os atos e lamentando as cenas que já não posso mais reprisar.

O crepúsculo abraça os céus e traz consigo a melodia da natureza, que ecoa em minha mente, despertando em mim uma nostalgia cortante. Sinto-me envolvido pelo suspiro sutil do vento, que sussurra canções antigas de amor e saudade. Como é doce e doloroso reviver essas lembranças!

Nessa eterna dança entre a vida e as lembranças, encontro refúgio nas palavras que brotam em meu coração, como uma fonte inesgotável de versos e sentimentos. Ah, a poesia, minha fiel companheira nas noites solitárias! Meus versos são um grito de alívio, uma catarse para a alma cansada, e um tributo à beleza efêmera que marca nossa existência.

Crônica Lírica - Fernanda Sophia

 Um Instante de Calmaria

Era um dia desses em que São Luis parece mais uma máquina incansável do que uma cidade. O trânsito, uma sinfonia caótica de buzinas, e as pessoas, como formigas apressadas em seu eterno corre-corre. Eu estava lá no meio, como um peixinho tentando nadar contra aquela correnteza de pessoas apressadas.

No meio daquele turbilhão, vi uma senhorinha sentada em um banco de praça. Ela estavam com aquele olhar distante, sabe? Como se estivesse revisitando memorias. A curiosidade me puxou e me fez sentar ao lado dela. Boa tarde, moço, ela disse, com um sorrisinho tímido.

Boa tarde! Dia agitado, né? Respondi. Ela assentiu e, como se estivesse compartilhando um segredo, começou a falar. Eu me lembro de quando essa praça não era só concreto e pressa. Era um cantinho verde, cheio de flores e bancos onde os amigos se reuniam. Sabe, meu marido e eu costumávamos sentar aqui. Ele sempre trazia um saquinho de pão para alimentar os pombos. Dizia que eram nossos bichinhos de estimação.

Sorri imaginando o cenário enquanto ela continuava: Passamos tantos anos juntos, ele e eu. As crianças cresceram brincando aqui. Hoje, mal reconheço o lugar. Mas, sabia, aqui ainda é o meu refúgio. Venho todos os dias, só para sentir um pouco daquela tranquilidade que ficou no passado. Enquanto ela falava, olhava as pessoas passando apressadas. É engraçado, né? A vida parece que não dá tempo pra gente apreciar esses momentos simples. A gente corre tanto que nem vê as mudanças acontecendo ao nosso redor. 

Concordei com um aceno. A conversa com aquela senhorinha me fez perceber que, no meio do caos, é bom parar de vez em quando. Olhar em volta, ouvir histórias, sentir o vento, os sons da cidade. Aquilo era um convite para a calmaria em meio à tempestade diária. 

Vou indo, moço. Obrigada pela companhia. Ela se levantou com um sorriso sereno. O prazer foi respondi.

Continuei ali, na praça que um dia fora um jardim de memórias para aquela senhorinha. Olhei para o relógio, atrasado como sempre, mas senti uma paz diferente. Às vezes, basta um momento de conversa com alguém com um olhar mais antigo para perceber a poesia escondida nas ruas movimentadas. E assim, no meio do furacão do dia-a-dia, eu me permiti ser levado pela brisa suave de uma história descoberta.

Crônica Lírica - Eric Ramos

 A bola de futebol


Em uma tarde ensolarada, no auge de minha juventude ganhei um presente misterioso. Com dedos trêmulos e a ansiedade dominando, abri o embrulho para descobrir uma esfera preta e branca: uma bola de futebol. No quintal coloquei-a na grama tão verde quanto uma esmeralda, tocando com delicadeza enquanto corria sentindo o vento, desencadeando uma ligação instantânea como se aquilo despertasse um belo sonho em mim.

Certos dias, levava para o campo. Onde amigos aguardavam, ansiosos para compartilhar durante uma duradoura e calorosa partida de futebol, corríamos pela grama tão rápido como a luz, sentindo a brisa refrescante que vinha contra meu rosto. Enquanto chutávamos a bola na rede do gol com um chute majestoso, e no raro instante que ela se acomodava lá era envolvida pela enorme rede e um alto e vibrante coro de vozes se unia para gritar GOOL!

Aconteceu-me, certa vez, uma enrascada. Um amigo chutou a bola em direção ao perigo, fazendo a bolam voar até uma janela tão vulnerável quanto um mero inseto. O som do impacto ecoou como um lamento no ar, e a bola quebrou o vidro que se fragmentou em vários pedaços e derrubou um vaso que também se desmontaria naquele trágico momento.

A moça gritou assustada e logo após ficou furiosa como um hipopótamo protegendo seu território, sua expressão me fazia pensar na morte certa. Apesar de não ter tido culpa, passei muitos dias e noites de castigo, num deprimente canto escuro, onde minha única companhia era o chão e as paredes.